Gabinete Amarelo

  • Início

flamenco Guitar guitarra Paco de Lucía Paco de Lucía

Paco de Lucía





Em solo, com o seu sexteto, ou em colaborações, o guitarrista espanhol universalizou o flamenco, recriando-o e mesclando-o com outras sonoridades, mas sem nunca perder de vista a raiz fundadora do gênero. Paco de Lucía foi brilhar no céu esta quarta-feira aos 66 anos.

  Quase todas as grandes famílias musicais têm heróis assim. Alguém que sem perder o contacto com a raiz fundadora de determinada tipologia musical é capaz de expandir o seu leque de influências, acabando por universalizar essa linguagem.

  O flamenco teve a sorte de ter o guitarrista, compositor e produtor Paco de Lucía, que faleceu esta quarta-feira, aos 66 anos, de enfarte cardíaco. Estava na praia com os filhos, em Cancún, no México, onde tinha uma casa, quando se sentiu indisposto, vindo a morrer a caminho do hospital.

  A cultura espanhola e o mundo da guitarra perdeu um dos seus pilares. Ele foi esse músico que, sem perder o contacto com a essência, foi capaz de mesclar o flamenco com outras sonoridades, principalmente com o jazz ou a bossa nova, embora os blues, a salsa, a música hindu ou a música árabe também o tenham marcado. Mas não foi apenas porque revestiu exteriormente o flamenco que se tornou imortal. Nunca é apenas por isso.

  É também, e talvez ainda mais importante, porque possuía o alento interior, a inspiração, que lhe inflamava a alma, passando essa intensidade para os dedos e a guitarra de seis cordas que dedilhava como ninguém. Era vê-lo, sentado, perna traçada, curvado sobre a sua guitarra, ora introspectivo, ora dinâmico e agitado, mas sempre apaixonado.

  Até Paco o flamenco era rude e folclórico. Com ele tornou-se estilizado, elegante e elástico, numa reformulação que lhe atribuiu maior profundidade de campo. Como todos os grandes heróis populares transcendeu fronteiras e estilos. Também tinha, como acontece sempre nestes casos, detratores, que o acusaram de abastardar o flamenco, quando começou a mesclar com jazz. Ele levava sempre consigo a cultura da Andaluzia e o flamenco, mas o seu olhar tinha dimensão universal. Ao longo dos anos transformou-se no mais internacionalmente reconhecido intérprete do flamenco.

  “Nunca perdi a ligação com as raízes na minha música”, afirmou numa entrevista na década de 1990. “O que tentei fazer foi situar-me na tradição e, ao mesmo tempo, procurar noutros territórios, procurar coisas novas para transportar para o flamenco.” Anos mais tarde reafirmaria essa ideia. "Não tenho medo que se perca a essência do flamenco", declarou em Agosto de 2004, depois de receber o Prêmio Príncipe das Astúrias, distinção maior das artes e da cultura na Espanha. "Um guitarrista tem de ter mais do que ritmo, tem de ter ar. Ar é fundamental", declarou na mesma entrevista.

  Estreou com o disco Dos Guitarras Flamencas (1965), em duo com Ricardo Modrego, e desde então a sua discografia nunca mais parou de crescer. Álbuns como Fantasia Flamenca (1969), El Duende Flamenco(1972), Fuente y Caudal (1973), Almoraima (1976), Castro Marin (1981),Siroco (1987), Zyriab (1990) ou Concierto de Aranjuez (1991) acabaram por popularizá-lo, embora o seu grande sucesso transversal tenha sido o tema Entre dos aguas.

 

  Nasceu em 21 de Dezembro de 1947 em Algeciras. Francisco Sánchez Gómez era o seu verdadeiro nome, mas acabou por adotar o de Paco de Lucía, como homenagem a sua mãe, Luzia, de origem portuguesa, de Castro Marim, que adotou o nome de Lucía Gomez. O pai, também guitarrista, tocava de noite nas casas de flamenco e de manhã era vendedor no mercado. Ele era o mais novo de cinco irmãos, sendo três deles (Pepe e Ramón, atuaram ao seu lado) também músicos de flamenco.

  Aos 5 anos recebe do pai a sua primeira guitarra e as primeiras lições. Faz parte do duo Chiquitos de Algeciras, no qual acompanhava a voz do irmão Pepe e é na Radio Algeciras que dá o primeiro recital. Em 1959 obtém um prêmio no Festival Internacional Flamenco de Jerez de la Frontera. Entretanto a sua família mudou-se para Madrid e ele ingressou na companhia do bailarino José Grego como guitarrista, em 1963. Durante uma digressão conheceu em Nova Iorque os guitarristas Sabicas e Mário Escudero que o incentivam a procurar o seu estilo de tocar.

  Em 1965 grava dois álbuns com Ricardo Modrego e, dois anos mais tarde, participa na digressão Festival Flamenco Gitano durante a qual viria a gravar o seu primeiro disco a solo, La Fabulosa Guitarra de Paco de Lucía (1967). Um ano mais tarde acaba por conhecer o vocalista Camaron de La Isla, com quem viria a gravar mais de dez álbuns, até à morte daquele em 1992.

   No seu álbum a solo de 1969, Fantasia Flamenca, já está bem definido o estilo fusion que o caracteriza. Fuente y Caudal, de 1973, é o álbum na qual se inclui a rumba Entre dos aguas, que esteve quase para não ser incluída nesse disco e que o viria a tornar famoso. Em 1977 entra nos domínios do jazz, gravando e atuando ao vivo com John McLaughlin, Al Di Meola e Larry Coryell. Com aqueles virtuosos das seis cordas assombrou plateias de todo o mundo com a sua técnica, o que contribuiu decisivamente para ganhar uma legião de novos admiradores.

  Grava com o grupo Dolores, numa homenagem a Manuel de Falla, acabando por Pardo (flauta) e Dantas (percussão) – fundadores dos Dolores – entrarem para o seu sexteto em 1981, na companhia de Carlos Benavent (baixo) e dos seus irmãos Ramon (guitarra) e Pepe (voz). O álbum ao vivo Live One Summer Night, gravado pelo colectivo, é um sucesso e no ano seguinte inicia uma colaboração com o pianista americano de jazz Chick Corea.

  Em 1986 volta para o formato mais introspectivo da guitarra acústica e o sexteto regressa apenas cinco anos mais tarde. Os álbuns Siroco e Zyriab (na companhia de Chick Corea) consolidam a sua fusão de flamenco, jazz e bossa nova que brilha em grande plano no Concierto de Aranjuez, de Joaquin Rodrigo, gravado em 1991 com a Orquestra de Cadaqués.

  Em 1996, 13 anos depois da sua anterior colaboração, grava de novo com John McLaughlin e Al Di Meola o álbum The Guitar Trio, seguido de uma digressão mundial. Dois anos mais tarde gravou um álbum de tributo à sua mãe, Luzia, e deu inicio a uma digressão mundial acompanhado por um sexteto renovado. Em 2004 viria a editar o seu último álbum de estúdio, Cositas Buenas, que veio promover a Portugal.

  Distinguido com o Prêmio Príncipe das Astúrias das Artes em 2004 e doutor honoris causa pela Universidade de Cádiz e pelo Berklee College of Music, recebeu também um Grammy pelo melhor álbum de flamenco de 2004, o Prêmio Nacional de Guitarra de Arte Flamenco, a Medalha de Ouro Mérito das Belas-Artes 1992, o Prêmio Pastora e o Prêmio da Música 2002.

  Nos últimos anos viveu em vários locais, em Espanha (Palma de Maiorca, Toledo), e fora também (Cuba, México), numa mistura de bonomia e isolamento, marcas da sua personalidade reconhecidas pelos que com ele conviviam, e também presentes na forma como olhava para música: qualquer coisa fundada na cultura local da Andaluzia, aprofundada de forma individual, mas expressada de forma comunitária e com um enorme apelo global.
flamenco , Guitar , guitarra , Paco de Lucía

Compartilhar

Curtir

G+

Tweet

Tweet

Posts Relacionados

Posts mais vistos

  • abnormalbehaviorchild.com
    Bela arte feita em flash ↑ clica
  • Requiem: o último episódio de Caverna do Dragão
    Caverna do Dragão foi uma série animada produzida pela CBS entre os anos de 1983 e 1985. Teve três temporadas e um encerramento abrupto, ap...
  • The Cathedral
    The cathedral é um curta de animação de Tomek Baginski, baseado no romance de Jacek Dukaj. Concorreu ao oscar de melhor curta de animação em...
  • Mulher morre atropelada pelo próprio carro
    Um mulher morreu atropelada pelo próprio carro em Santa Cruz do Sul (RS). A informação é da rádio Gaúcha. Tânia Maria de Souza, 42 anos, est...
  • Tarantino's mind
    "Tarantino's mind" tem direção e roteiro coletivo da 300 ML e produção da Republika Filmes. O curta é um papo entre Selton Mel...
  • Guitarristas batem recorde com música do Deep Purple
    Guitarristas se juntaram em Stuttgart, na Alemanha, para tocar a música Smoke on the Water, do Deep Purple, em massa e tentar entrar para o ...
  • Apresentadora nos EUA rasga script em protesto contra Paris Hilton
    Uma apresentadora de noticiário nos Estados Unidos, Mika Brzezinski, tentou queimar seu roteiro ao vivo na televisão em um protesto por ter ...
  • Projeto Outings
    Projeto Outings
    O projeto outings idealizado pelo francês Julien de Casabianca , consiste em fotografar quadros não muito visitados, de ...
  • Forests for life.
    Clique na imagem para ampliar
  • Eliana supreende no Nunca se Sábado
    Eliana canta seu mais novo sucesso, o dedo do meio. :P

Archive

© 2015 gabinete-amarelo